
Introdução
A existência de políticas, procedimentos, comitês e controles não é suficiente para demonstrar que uma organização possui uma governança madura. A questão mais relevante é: esses mecanismos efetivamente influenciam a forma como a organização decide e age?
Essa pergunta aproxima a discussão sobre maturidade de governança de uma importante contribuição da teoria da administração: a aprendizagem organizacional. Diretrizes internacionais estabelecem orientações para a avaliação da maturidade da governança, incluindo estruturas de medição, escalas e modelos aplicáveis a organizações de diferentes tipos e tamanhos.
A partir dessa perspectiva, maturidade não deve ser compreendida como um estoque de mecanismos de governança, mas como a capacidade de aplicá-los de maneira consistente, avaliar sua efetividade e promover melhorias a partir dos resultados obtidos.
Governança de organograma
Uma organização pode ter um programa sofisticado de governança e, ainda assim, apresentar fragilidades relevantes. Isso ocorre quando existe uma distância entre o que foi estabelecido, o que é executado, o que é monitorado e o que efetivamente orienta as decisões. Essa distância pode aparecer em situações aparentemente simples:
- uma denúncia é recebida, mas o processo de investigação é inconsistente;
- um risco crítico é identificado, mas não recebe tratamento compatível com sua relevância;
- um conflito de interesses está previsto em uma política, mas não é adequadamente identificado na prática;
- um controle foi formalmente instituído, mas sua efetividade não é verificada;
- um incidente ocorre e a organização corrige o caso concreto, sem avaliar o que permitiu que ele acontecesse.
Nesse cenário, a governança existe formalmente, mas sua capacidade de influenciar o comportamento organizacional é limitada.
É o que podemos chamar de governança de organograma: aquela que está representada em estruturas, responsabilidades, políticas e comitês, mas ainda não está suficientemente incorporada aos processos, aos comportamentos e às decisões.
O risco é relevante, quando a estrutura de governança atua predominantemente após a ocorrência dos eventos, a organização passa a operar de forma reativa, em vez de utilizar riscos, informações e controles como elementos para antecipação e tomada de decisão.
A maturação da governança
Ter uma governança de organograma não significa necessariamente que a organização seja capaz de aprender com os eventos que enfrenta. Quando relacionamos a maturidade da governança às teorias de aprendizagem organizacional e aprendizagem de duplo ciclo, essa diferença se torna mais evidente.
Na aprendizagem de ciclo simples, a organização identifica um desvio e corrige a ação para retornar ao resultado esperado. Na aprendizagem de duplo ciclo, a organização vai além: questiona as premissas, os valores, os critérios e os pressupostos que orientaram aquela decisão, em governança, essa diferença é fundamental.
Diante de uma falha de controle, por exemplo, a primeira reação pode ser criar um novo procedimento, estabelecer uma nova aprovação ou reforçar um treinamento. Essas medidas podem ser necessárias, mas a pergunta estratégica é outra: por que o sistema de governança permitiu que a falha acontecesse? Essa pergunta desloca a organização da simples correção do evento para a identificação das falhas estruturais, processuais ou comportamentais que permitiram sua ocorrência.
É nesse ponto que está uma das principais dimensões da maturidade: o aprendizado contínuo. Uma organização madura não pressupõe que seus controles sejam eficazes apenas porque foram formalmente instituídos. Ela cria mecanismos para verificar:
- se os riscos estão corretamente identificados;
- se as responsabilidades estão claras;
- se os controles funcionam;
- se os controles são efetivos diante dos riscos que pretendem tratar;
- se as informações chegam a quem possui competência para decidir;
- se os incentivos são coerentes com os valores declarados;
- se os incidentes geram aprendizado;
- se as lições aprendidas são incorporadas aos processos;
- e se a liderança utiliza as informações de risco na tomada de decisão.
A maturidade, portanto, não está apenas na existência da estrutura, está na capacidade de transformar informação em decisão, decisão em ação e resultados em aprendizado organizacional.
Como avaliar a maturidade da governança?
Uma avaliação de maturidade pode ser estruturada a partir de cinco perguntas:
- A estrutura de governança está formalmente estabelecida?
- Os processos são efetivamente executados?
- Os controles produzem o resultado esperado diante dos riscos que pretendem tratar?
- As pessoas utilizam a governança como parte da tomada de decisão cotidiana?
- A organização utiliza incidentes, riscos, desvios e resultados para aprimorar suas próprias premissas e práticas?
Essa última pergunta é especialmente relevante. Uma organização que aprende não se limita a responder ao evento. Ela utiliza o evento como informação para modificar processos, comportamentos e decisões futuras.
Conclusão
Maturidade não significa ausência de problemas.
Organizações estão sujeitas a riscos, mudanças regulatórias, transformações tecnológicas, alterações de mercado e decisões tomadas sob condições de incerteza.
A maturidade está na capacidade de reconhecer, responder, aprender e adaptar-se.
Por isso, a avaliação de maturidade não deve ser utilizada apenas para classificar a organização, mas para identificar lacunas e estabelecer quais capacidades precisam ser desenvolvidas.
Mais do que perguntar se determinada política existe ou se determinado controle foi implementado, é necessário avaliar se a estrutura de governança é capaz de produzir respostas adequadas diante dos riscos.
E talvez uma das perguntas mais relevantes para a liderança seja: Quando esse risco se concretizar, nossa organização terá capacidade para responder de forma tempestiva, coordenada e coerente? Essa pergunta desloca a governança do campo documental para o campo da capacidade organizacional.
É nesse campo que a maturidade começa a ser percebida.
Barbara Ferreira
Advogada, Especialista em GRC e PLD, Auditora Interna, Gestora de Privacidade.